Novas esperanças através da tecnologia

Pesquisa desenvolvida na FACS comprova possibilidade de regenerar neurônios em estufa de cultura.

Imagine poder recuperar os movimentos ou a sensibilidade após uma lesão causada por traumas neurológicos. Se antes isso poderia ser considerado pouco provável, hoje o avanço da tecnologia e das pesquisas faz brotar um fio de esperança de que a cena possa se tornar rotineira. Cada vez mais, estudos avaliam alternativas para resolver problemas desta natureza, buscando restabelecer a comunicação natural entre os membros e o cérebro.

Pesquisa desenvolvida na Faculdade de Ciências da Saúde (FACS) da UERN dará um importante passo nesse sentido. Os pesquisadores comprovaram a possibilidade de regenerar neurônios em estufa de cultura. O trabalho inédito abre caminho para novos estudos com a utilização de fatores neurotróficos (relativos ao processo de nutrição, metabolismo e crescimento das células nervosas) e substâncias que possam estimular a regeneração neuronal.

O Prof. Dr. Fausto Pierdona Guzen, um dos coordenadores, explica que a pesquisa se trata da obtenção de neurônios humanos, a partir de cérebros traumatizados. Para o diagnóstico, foram coletadas amostras de tecidos nervosos de pacientes internados no Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM) que sofreram traumas neurológicos.

“São pessoas que foram acometidas por traumatismo crânio encefálico e, consequentemente, sofreram lesão neurológica, lesão cerebral”, explica o pesquisador. Nos casos de Acidente Vascular Encefálico (AVE) ou em situações traumáticas, como acidente automobilístico, arma de fogo, por exemplo, o tecido nervoso pode ser “danificado”. Esse tecido é desconectado do sistema nervoso e durante a cirurgia se faz sua eliminação, “não tem como você reimplantá-lo, não tem como conectá-lo novamente no cérebro, como colar essas superfícies, que a gente chama de córtex”, reforça.

“Nossa ideia foi pegar esse material e tentar obter as células desse tecido nervoso em cultura. Em vez de ser descartado, a gente coletou as amostras desses pacientes que sofrem trauma no HRTM, e preparamos esse tecido nervoso para poder recuperar esses neurônios, essas células da glia”, explica o pesquisador. As células da glia são células auxiliares que possuem a função de suporte ao funcionamento do Sistema Nervoso Central (SNC).

O Prof. Esp. Starlynn Freire dos Santos, que integra o estudo, ressalta que a pesquisa tem o aval do Comitê de Ética e Pesquisa, e o consentimento dos familiares dos pacientes traumatizados, cujos tecidos nervosos foram utilizados para o diagnóstico. “Essas células seriam desprezadas, não teriam nenhuma função”, reforça Fausto Guzen.

De acordo com Fausto Pierdona Guzen, durante o estudo eles conseguiram perceber que o tecido nervoso após ser desconectado do sistema nervoso ainda tem uma vida celular, e “coletando esse tecido que foi danificado, fragmentado, a gente consegue recuperar essas células em estufa de cultura”, declara, ressaltando que o estudo abre todo um caminho, por exemplo, para reimplantar essas células do tecido nervoso.

NOVAS PESQUISAS

A FACS possui um laboratório de neurologia experimental, coordenado pelos professores Fausto Pierdona Guzen e Dr. José Rodolfo Lopes de Paiva Cavalcanti, que faz pesquisas com a parte de regeneração nervosa, usando principalmente a parte de medula espinhal, cultura de encéfalo, basicamente em modelos de animais. “Então, a gente se associou e resolveu fazer um trabalho em humanos, até mesmo porque não existia na literatura nenhum trabalho de regeneração neuronal, pesquisa com células nervosas, em humanos”, informa o professor Starlynn Freire dos Santos.

Os professores Starlynn Freire e Fausto Guzen coordenam o estudo – Foto: Wilson Moreno

Fausto Pierdona Guzen avalia que a pesquisa sobre o cultivo de neurônio é o pontapé para estudos mais avançados. “Hoje a gente está vendo muito esse modelo da terapia celular, principalmente esse modelo com célula-tronco. No entanto, vemos essas células-tronco sendo depositadas no sistema nervoso, sem nenhuma identidade”, ou seja, é implantada a célula-tronco embrionária dentro do tecido nervoso, mas essa é uma célula que ainda não tem uma diferenciação, não tem uma identidade.

“A ideia é que a partir do momento que conseguimos obter esses neurônios humanos, por meio do cultivo em cultura, a gente pode misturá-los com células-tronco e em função dessa mistura dar uma identidade para a célula. E a partir do momento que ela adquire essa identidade, a gente pode transplantá-la no sistema nervoso danificado”, explica Guzen.

AVANÇOS NA ÁREA DE PESQUISA

Na avaliação do titular da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPEG), Rodolfo Lopes de Paiva Cavalcanti, a UERN tem apresentado uma curva crescente em pesquisa, constatada por aspectos quantitativos e qualitativos.

“Fazendo um simples recorte no tempo, é possível identificar que na edição 2010-2011 do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), pouco mais de 100 estudantes estavam envolvidos na proposta. Na edição atual do PIBIC (2017-2018), que se encerrou em agosto, chegamos a marca dos 560 estudantes envolvidos nos mais diversos projetos, em todas as áreas do conhecimento”, exemplifica.

Para ele, este é um número que por si só já gera impacto. Todavia, os aspectos qualitativos das pesquisas envolvidas também chamam muito a atenção. “Docentes, técnicos e estudantes têm empenhado esforços nas suas pesquisas, a fim de repensarem políticas públicas, reconstruírem conceitos, entenderem melhor as doenças, enfim… transformarem a realidade por meio da produção do conhecimento científico”, pondera Rodolfo Lopes.

Ele ressalta que inegavelmente, essa mudança no perfil acadêmico é resultado também da ampliação das ofertas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) nos últimos dez anos, aliado a uma política mais robusta de capacitação docente e “que hoje se reflete em números bastante animadores, quando mais de 90% do nosso quadro docente é formado atualmente por mestres e doutores”, destaca o pró-reitor. Com a transformação do panorama docente, veio a transformação do panorama da pós-graduação. Por conseguinte, a pesquisa científica institucional passou a sofrer influências desses impactos positivos.