Todas as ruas têm nome de homem?

Pesquisadora da UERN estuda origens de cultura patriarcal no Brasil

“Menino veste azul e menina veste rosa”. A polêmica declaração da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, tem levantado discussões sobre ideologia de gênero no país.

No dia dois de janeiro deste ano foi divulgado um vídeo onde a ministra aparece em um momento particular, cercada por apoiadores, onde afirma que é inaugurada uma nova era no país, em que “menino veste azul e menina veste rosa”. As imagens ganham mais simbologia por terem sido feitas no dia da cerimônia de transmissão de cargo na qual Damares assumiu a pasta, quando afirmou, em seu discurso de posse, que “menina será princesa e menino será príncipe”.

Declarações como as da ministra reforçam uma cultura predominantemente patriarcal existente no Brasil. De acordo com a professora Mirla Cisne, da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), a abordagem dos estudos no campo do feminismo são fundamentais, principalmente em uma conjuntura que aponta um grande fundamentalismo religioso reacionário e que afeta em particular a vida das mulheres, pelo reforço da naturalização a uma ideologia patriarcal.

A professora pesquisa a origem do que considera ser uma naturalização de uma ideologia patriarcal. Segundo ela,“o que eles dizem que é proibir a ideologia de gênero é, ao contrário, naturalizar uma só ideologia, a de gênero patriarcal, que naturaliza o que se considera ser homem ou mulher, dentro de uma perspectiva biologizante e dentro de um modelo de desigualdade entre homens e mulheres, naturalizando assim, papéis que são socialmente determinados como algo natural, como a questão da maternidade de um modelo patriarcal.”

Partindo do pressuposto que essa submissão feminina não é natural, mas construções culturais, socialmente determinadas, um dos projetos de pesquisa de Mirla estuda como esse modelo surgiu na história do Brasil. “Todas as ruas têm nome de homem?: uma análise da construção sócio-histórica e econômica do patriarcado e do racismo na formação colonial brasileira” tem a intenção de problematizar a história do Brasil, inclusive a história oficial, e busca entender como essa ideologia patriarcal tão forte e tão reforçada na cultura atual, iniciou.

O projeto partiu da necessidade de perceber que os próprios pensadores brasileiros, que pensam a formação do Brasil, são homens. “Por mais que tenhamos alguns valorosos pensadores brasileiros, por mais críticos que eles sejam, na nossa opinião, falta muito essa análise do ponto de vista feminista, com exceção de alguns ensaios, alguns esforços, mas que não chegaram a gerar uma obra sobre um pensamento feminista do Brasil. Saffioti (Heleieth Saffioti) foi a que mais se aproximou disso, com sua tese de doutorado que virou livro, intitulada A Mulher na Sociedade de Classes, onde dedica parte do livro a pensar o patriarcado na formação do Brasil”, explica a professora.

O projeto foi um dos aprovados na Chamada Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que possibilitará recursos para viabilizar a análise de documentos da época da colonização do Brasil no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro para tentar identificar como as mulheres viviam e eram tratadas nesse período colonial. “Mais de 90% das ruas tem nomes de homem e isso é resultado de uma história patriarcal, que tem esses homens como heróis. As poucas mulheres que nomeiam as ruas geralmente estão dentro da história oficial, e não são as que realmente são lutadoras, resistentes. Mulheres quilombolas, mulheres indígenas… quais estão em nomes de ruas?” questiona.

A análise da pesquisadora vai além. Segundo ela, muitas vezes, os nomes vinculados a essas ruas são de ditadores, escravocratas e não o que chama de heróis e heroínas do povo. “ Isso significa que o próprio mundo público não reflete de fato a dimensão das lutas e das resistências, como disse Florestan Fernandes, dos que vem de baixo, sempre dentro de uma perspectiva elitista, patriarcal e racista que modela a formação do Brasil”, explica Mirla.

A intenção é dar continuidade ao projeto, com a pesquisa de outras épocas da história do Brasil até os dias atuais.